Orlandinho, o algodão doce e uma tal felicidade
- Contextualize UEMG - Passos
- 7 de nov. de 2017
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A voz é serena, o tom é calmo e, quando ele ouve, possui uma paciência que ensina qualquer ser afoito, refém da correria do dia-a-dia, a ser e fazer diferente. Correria muitas vezes desnecessária. Mas insistimos nela. O tempo, para as pessoas normais, é ligeiro; o tempo, para o homem simples, não importa. Deixa a vida me levar, vida leva eu, mas a vida precisa ter muita paciência, porque pressa não combina com o senhor Orlando de Oliveira.
Nascido no Distrito do Itaci, município de Carmo do Rio Claro, o Orlandinho do algodão doce não economiza na tranquilidade, no bom humor e numa disposição insólita.
Na cabeça, um boné velho. Mas isso não importa, a grife de Orlandinho é a simplicidade que todo ser humano deveria ao menos parcelar no cartão de crédito para tê-la. Confesso, já tentei adquiri-la, porém meu limite humano ainda é muito pouco para tão necessária aquisição. O restante da vestimenta também não atrai o mercado da moda, todavia, desfila o orgulho imensurável de um trabalhador.
Com uma voz branda pergunta para quem quer que passe por ele: “quer comprar um algodão doce ou um picolé?”. E mesmo que a resposta seja um não, agradece irradiante com um “obrigado ocê”. Muitas vezes, devido à sua simpatia, as pessoas prolongam a prosa, só pelo prazer da conversa com o folclórico personagem real da história carmelitana.
Prestes a completar 64 anos, o qual será no dia 05 de janeiro de 2018, véspera do dia de Santo Reis, o católico Orlandinho, apesar da alegria espontânea, algo raro em uma época cada vez mais virtual e artificial, passou a infância e juventude duelando com o sol na cabeça e o cabo de enxada nas mãos. Depois de um tempo no Itaci, mudou com a família para a zona rural de Santa Rosa, também município de Carmo do Rio Claro. Desde menino ajudava no sustento da família, tirando do rosto a única lágrima triste que talvez tenha tido: o suor. “Fui roceiro, o batido era quente, muitas vezes tinha que tirar tarefa, era pesado”, relembra com uma inocência singular.
Mudou para a cidade em meados da década de 1980, sempre residindo no bairro do Rosário. E desde então vende seus algodões e picolés.
Você é aposentado? “Sou sim”. Então por que vende algodão doce e picolé? “Vendo para não ficar parado, porque vendendo eu não vejo o dia passar”. A resposta é no ato, sem tempo para uma elaboração de pensamento. Parece tudo espontâneo na sua linha de raciocínio.
É ainda mais enfático ao dizer que não gosta de ficar parado, pois, assim, não fica pensando que o mundo está acabando. Após a declaração, dá uma gargalhada, sem medo de qualquer julgamento e até parece se esquecer de pensar no fim de qualquer coisa.
Mas é um pouco vago imaginar que a vida do popular vendedor de algodão doce e picolé se limita apenas a essas atividades. Na época das colheitas de café, troca as ruas de Carmo do Rio Claro pela roça durante o meio da semana. Não há problema em madrugar, colocar um embornal nas costas e sofrer com o frio da época. O que Orlandinho não quer é ficar parado e não ver o dia passar.
Saudosista, gosta de sertanejo antigo, porque esse estilo de música, segundo ele, recorda muito a vida da pessoa. No sentimento do homem que leva consigo um apito, parte de sua publicidade para chamar atenção aos produtos que vende, existe um indivíduo que ouve A Mudança, de Lourenço e Lourival, sua preferida, uma música linda de bonita, como a define; mas no repertório também tem Gino e Geno e o Rei do Café, de Liu e Léo. Tudo isso chapando um bom guaraná, como orgulhosamente expressa. Bebida alcoólica não é com ele, pois diz que acaba com a saúde.
“A felicidade é uma alegria que não é concebida aos ímpios, mas àqueles que te servem por puro amor: tu és essa alegria! Alegrar-se de ti, em ti, por ti: isso é felicidade.” A simplicidade e felicidade de Orlandinho parecem ser uma tradução fiel ao trecho acima do livro Confissões, de Santo Agostinho.
Junto à inseparável bicicleta, comercializando algodão doce ou picolé pelas ruas da cidade, existe uma imagem de quem tem um comprometimento em viver feliz e um descaso com o ego desvairado de nós, iludidos mortais. Uma contradição em pessoa que ignora o tempo com sua calmaria e trabalha para não vê-lo passar. Um homem que risca o tédio dos dias e abraça o mundo sorrindo.
A vida de Orlandinho é uma felicidade linda de bonita.
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